
Mesmo depois de um mês de sua estréia, Inception continua gerando discussões por onde passa e dividindo opiniões. De um lado um público impressionado por algo que ainda não consegue definir, de outro um vasto mundo histórias parecidas já contadas nas telas do cinema. Os críticos atacam a falta de originalidade, como uma colcha de retalhos de filmes que já foram vistos. O público aclama, embasbacado com a vasta nuvem de possibilidades que o filme deixa em aberto. Sim, impossível não elogiar as camadas bem produzidas, a gravidade inexistente. Mas é original? Se não, o que atraiu tanta atenção, se não há novidades nem a narrativa em sua técnica? A idéia.A inserção da idéia.
A idéia é ponto chave de toda história, seja ela real ou ficção. É a base da criação e da mudança. Da invenção da roda ao avião ela é o ponto inicial de toda a ação que gera o novo. Mas a idéia de inserir uma idéia é tão paradoxa quanto sua própria trama. Dizem que a idéia vem da inspiração, você cria algo novo, mas será realmente novo? Lavoisier já disse: nada se perde, nada se cria, tudo se transforma. Ou tudo se copia. Eis a questão.
Mas se a real idéia não existir realmente, há de se concluir que pode-se de alguma forma induzir a criação? De acordo com Nolan, parece que sim. Meu intuito neste post é tentar entender a cabeça de Nolan, baseado em seus feitos no cinema e a sua própria filmografia. Afinal, essas também não são as camadas do próprio Nolan? Mas não é tarefa simples.
A começar por Amnésia, filme que o fez ser notado pela crítica. Por que fez tanto sucesso? Amnésia usa a desordem das cenas para causar peculiaridade, mas contar histórias partidas é uma prática recorrente muito utilizada por escritores em geral para criar suspense a suas obras. A genialidade de Nolan é conseguir dar fundamento a falta de ordem. Ao usar uma característica patológica da doença que dá nome ao filme, elecriou um motivo para a história ser contada daquela maneira. Amnésia e seus vários pedaços de memória formam a história no qual há um sentido ter sido feita daquele jeito. Nolan consegue dar sentido ao mais absurdo que algo possa parecer.
Em Batman Begins, Christopher recomeça uma história desacreditada. Mas para isso precisa dar credibilidade a motivação de seu personagem, dando-se ao trabalho de recontar a origem das habilidades, seus traumas e limitações, deforma que acreditemos nas suas convicções. Ele nos convence que aquilo pode ser possível. Detalhista, ele pontua cada parte de sua criação, psicológica, física, mental e até financeira, para que aquele herói possa existir ao mais próximo possível da nossa realidade. E acredito que com êxito, Batman se tornou referência do herói de quadrinhos no cinema. E a genialidade de Nolan se completa, quando ele cria um vilão a altura de seu herói em Batman, o cavaleiro das trevas. O completamente perturbado Coringa. Ele retira qualquer resquício de sanidade, extrapolando qualquer limite de bom senso contra os outros e contra si mesmo. Mostra seu menosprezo quando a própria dignidade ao se vestir de enfermeira, valores humanos, ao inserir uma bomba em um ser humano e a valores materiais, queimando literalmente dinheiro, muito dinheiro. E este personagem testa o mundo, e a nós de nossas próprias convicções.
Mas a grande chave da mente de Nolan está em Prestigie(em português “O grande truque”). Dois ilusionistas, um com um bom truque e outro com a visão do espetáculo. Mais do que isso, duas personalidades com qualidades diferentes que se completam e que saíram da mente da mesma pessoa, Christopher Nolan. Na corrida para se tornar o melhor ilusionista do país, Angier, para conseguir criar o efeito de seu número de mágica, abdica da sua visão dos aplausos da platéia ao final do espetáculo. Porém aquele preço é alto demais a ser pago. E a cena em que ele está embaixo do palco, onde ele apenas consegue ouvir a ovação da platéia, e faz seu agradecimento mesmo que cego ao seu público é uma das mais significativas. Desde então ele vai em busca de aprimorar o espetáculo até poder ver com seus próprios olhos o resultado de seu grande show, e mais realmente ser reconhecido e recompensado por sua atração. É possível se pensar que a mente de Nolan também funciona da mesma maneira, não?
Se formos juntar tudo isso, se essas são as camadas de Nolan, podemos concluir que Nolan, o grande ilusionista, resolve enfim colocar o seu próprio grande truque em prática? Em seu grande número, Inception, em primeiro lugar ele torna seu espetáculo algo mais próximo da realidade, usando sensações que qualquer pessoa já teve ao sonhar. A perda de noção do que é real nos nossos sonhos, a correlação dos sonhos com os nossos sentidos externos e até mesmo o nosso espanto ao acordar quando pensamos cair. Feito isso, ele também já conseguiu fazer com que acreditemos que aquela maneira de contar a história tenha sentido. E por fim, ele começa seu grande show. Como a audácia de um grande mágico, ele conta o grande segredo de seu truque para a sua grande platéia. “Eu vou inserir uma idéia”, diz Nolan. E ao longo de todo espetáculo ele te conta minusciosamente como ele vai fazer isso, “criarei um novo mundo, vendarei seus olhos, e quando contra até três, voila” . Mas não é um truque qualquer, ele sabe muito bem o que faz. E você pode pensar que já sabe tudo, mas ao final ficará se perguntando o que realmente aconteceu. Sim, a mágica aconteceu. Um truque velho, é verdade, porém bem elaborado e transformado em um grande espetáculo. Ele engana seus sentidos, te distrai contando a verdade, e simplesmente faz acontecer. Christopher Nolan consegue ver a platéia reconhecer seu grande feito, os atores por melhores que sejam, não são os admirados da vez. Christopher consegue sim sair de trás da coxia e receber os aplausos de seu público. E lhe é merecido. Christopher Nolan é mais uma vez a personalidade por trás de seus personagens, o ladrão de idéias, o insersor de idéias. E você ainda duvida que Christopher Nolan conseguiu transcender as telas do cinema e inserir a sua própria idéia na mente do mundo todo? Pois olhe de novo.