Com o lançamento do remake de Karate Kid nos cinemas e alguns comentários fervorosamente positivos sobre o filme, que chegam a colocá-lo em posição superior ao seu original, resolvi assistir os dois filmes para poder ter base para uma opinião coerente sobre o assunto. E valeu a pena.
Assisti primeiro o remake. Minhas expectativas eram bastante baixas e isso se deve a falta de coragem da distribuidora em colocar o que deveria ter sido o seu verdadeiro nome “Kung Fu Kid”, já que o filme trata de Kung Fu e essa atitude demonstra falta de confiança no material que produziu. Mas me surpreendi com o resultado que não só teve grande respeito pelo seu original, mostrando uma produção bem feita, uma linha narrativa coerente e carga emocional bem desenvolvida, como também acrescentou sua própria essência, com uma aura oriental, utilizando de tons frios na fotografia, quase simulando uma névoa constante e típica do fantasioso imaginário chinês. Jadem Smith, que interpretou o garoto Dre, que se muda para a China com sua mãe e acaba encontrando problemas com os garotos da região, mostra que herdou o talento do pai se saindo muito bem tanto nas cenas cômicas quanto dramáticas. Jackie Chan, conhecido não só pela destreza de movimentos, mas também pela sua face cômica e caricata, enfrenta o desafio e constrói um personagem de semblante sério que atrai a atenção. E é bastante agradável ver Jackie, que teve um treinamento acrobático rígido quando garoto, como um verdadeiro conhecedor das artes marciais de uma forma bastante real. Ele merecia um papel destes e é um presente pra nós poder vê-lo com essa dignidade. A combinação dos dois funciona, cenas dramáticas interpolam com cenas de ação, bela fotografia, inserções culturais chinesas, alguns momentos cômicos e um ritmo constante, convence que o filme fez juz ao seu original.
No entanto eu discordo que ele seja melhor que “Karate Kid, a hora da verdade” de 1984. Talvez porque ele tenha o espírito do movimento cinematográfico atual, que se leva a sério demais. Reassistindo Karate Kid, me dá saudades de filmes que podiam ter ação e graça ao mesmo tempo, sem se tornarem pastelões por isso. Em uma cena memorável, Daniel Larusso, para não ser reconhecido na festa da escola se fantasia de Box de banheiro, dá um banho em seu rival e sai correndo e sendo seguido pela sua gangue. Acho que a crítica atual não deixaria passar uma cena dessa imune às farpas. Os filmes de ação misturavam muito mais diversão, como a trilogia clássica de Star Wars, entre uma batalha e outra era recheada de frases de efeito que são lembradas até hoje. Hoje isso algo que é praticamente impossível dever. Poucos são os filmes que conseguem, Homem de Ferro talvez seja um deles. Outra característica atual é a idade dos personagens. Hoje, para o filme funcionar com uma história romântica inocente, os personagens parecem não podem ter mais de 12 anos, porque adolescentes com mais de 13 anos precisam experimentar drogas e sexo. Seja pelo retrato da sociedade atual ou por molde a sociedade, filmes com garotos legais tirando carteira de motorista sem fazer uma orgia, estão extintos do mundo cinematográfico. Os nomes dos personagens também são uma marca forte, até hoje você pode falar de Sr. Miyagi, Daniel Larusso ou Cobra Kai, e será perfeitamente entendido. Outra coisa que me incomodou muito, foi Jackie Chan se debulhando em lágrimas. Ao menos pra mim, um verdadeiro mestre tem sua alma plena e seus traumas praticamente resolvidos. Sr. Miyagi também tem seu momento, porque todos temos dias ruins, mas é apenas aquele instante que no dia seguinte deixa de ter influência, e isso só afirma seu equilíbrio e sabedoria. Pra mim é um outro aspecto dos tempos atuais, onde sempre há um sentimento de culpa a ser superado, um trauma interior a ser combatido, ao invés de resolver seus problemas por suas convicções. Sr. Miyagi demonstra força e serenidade e porque não garbo e elegância. Karate Kid criou símbolos, como a faixa com o desenho do sol na cabeça e o golpe da garça que é um clássico do cinema que definitivamente não conseguirá ser superado pela imitação de cobra de Jadem Smith.

Mas nada disso desmerece o filme que vale muito o ingresso, se difere do seu original, é bem produzido e dirigido. Em nenhum momento se pede que ele seja a cópia de seu antecessor, e todas as escolhas tem um sentido coerente e eficaz. Minha única crítica é que ao optar por sua ligação direta ao original, perdeu a chance de criar a sua própria marca e dar força e reverenciar com todos os brios a tão interessante arte do Kung Fu.

Fantástica avaliação. Cresci na década de 80 e 90 e sinto o gosto do lanche da tarde quando vejo filmes como Karate Kid. Essa sensação não dá pra ser substituida.
Ainda assim, quero muito ver o filme novo.